Apocalípticos e integrados

 

 

Com esse título, Umberto Eco, nos anos 60, ironizava as disputas entre os cultores assustados da alta cultura em derrisão e aqueles entusiastas abobalhados pela cultura de massa. Nem um lado nem outro, evidentemente, devem ser assumidos sem uma tensão dialética.

 

Os termos eruditos, popular e pop não são fronteiras estanques, fáceis de serem delimitadas.

 

Pela teoria estética, o termo pop viria, em meados dos anos 50, a designar um tipo de cultura norte americana. Tal questionamento conceitual surge e se expande a partir dos debates “eruditos” da arte, mais precisamente da chamada Pop art, cujos temas elevavam imagens vulgares da cultura das ruas – latas de sopa, atrizes de cinema ou cadeiras elétricas, tanto faz – a ícones artísticos, em uma operação às vezes críticas, às vezes irônica, ou mesmo cínica.

 

Parênteses: no Brasil, essa cultura da Pop arte teve outro influxo mais político. Muitos artistas brasileiros se apossavam de ícones pops (quadrinhos, futebol, Roberto Carlos etc), para expor um contexto de repressão. Vale a pena conhecer as “bananas” de Antonio Dias, cujos elementos cortantes sugerem tortura, os quadrinhos escuros de Marcelo Nitsche e Claudio Tozzi etc.

 

Ou seja, há uma construção teórica que podemos estudar para dar mais peso a reflexões sobre o que seria o pop, sem cair na armadilha dos integrados que apenas se encantam com o já encantador mundo encantado da cultura de massa. Desse modo, só encontramos o que foi posto lá para que encontrássemos…Jorge Coli, historiador da Unicamp, certa vez escreveu que as obras de cultura de massa só atingem um grau de significação complexa – o que as tornaria algo que chamamos arte –por um feliz acordo de partes, quase à revelia de seus ditames, pois não foram criadas pelo mercado para essa função. Ao contrário, geralmente o mercado tende à simplificação, à estandardização. E claro que muitos objetos de cultura de massa atingem esse grau complexo de significações…mas eles não deixam de ser, ainda e antes de tudo, mercadorias. O que também pode valer, evidentemente, para o que chamamos de erudito, ou mesmo popular. Esse é um tema central da Estética contemporânea.

 

Sugestões de leitura: o famoso ensaio A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, de Benjamin, nas suas várias versões publicadas pela L&PM. Em uma das versões, Benjamin tenta pensar o conteúdo catártico – e, talvez, emancipatório – de figuras como o Mickey Mouse. Tese duramente criticada por Adorno. O volume da L&PM traz parte das cartas entre Adorno e Benjamin nas quais se desdobra a polêmica.

 

Outras sugestões, menos canônicas, seriam os textos do filósofo contemporâneo norte americano Arthur Danto, como o livro Andy Warhol, publicado pela Cosac Naify. Nesse livro, que me incomodou e irritou bastante quando li, o autor encontra na iconofilia pop um certo sucedâneo do ícone católico, expondo um laço inusitado entre capitalismo e religião, que ele, entretanto, não problematiza. Há um artigo do mesmo autor sobre Warhol disponível on line no Scielo, para quem quiser dar uma olhada, o título é significativo O filósofo como Andy Warhol

 

Outro texto que também me incomodou muito quando li foi o romance de Umberto Eco, A Misteriosa chama da rainha Loana. A tal rainha é uma personagem de história em quadrinho clássica, não me lembro se de Flash Gordon ou Mandrake, e o texto trata de um homem que, ao ver-se privado de memória, tenta resgatar seu passado por meio da cultura pop de sua infância, mostrando como esse tipo de produto cria uma memória coletiva.

 

E, não deixa de ser importante lembrar, há uma forte imposição cultural nesses produtos, que nunca deve ser menosprezada, o que nos leva a citar um texto brasileiro da Laerte, o livro Laertevisão, no qual a cartunista revê sua infância ligada ao imaginário televisivo. O livro é todo em quadrinhos. Muito legal para quem gosta de cartum…Laerte faz parte da ‘memória coletiva’ da minha geração…

Sugestões para nossos debates do próximo semestre…

 

Boas férias

Priscila

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